segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Noturno Nº 17; BH, 0110702011.

Minha namorada predileta é a noite;
Gosto dela, aliás amo-a, como amei
Todas as mulheres negras escravas e
Canonizadas nos pelourinhos e
Beatificadas nos relhos e nas
Chibatas dos senhores de engenhos
E das fazendas de café; amo todas
Essas escravas santificadas no sofrimento,
Todo sangue que foi derramado
Delas, transformaram-nas em santas;
E essas cativas santificadas são as
Minhas namoradas prediletas; inda
Hoje elas fazem milagres; de cada gota
De suor nasceu um anjo; de cada
Gota de saliva, um tempero; onde
Caiu um pouquinho delas, nasceu
Uma flor; amo essas ancestrais da
Escravidão e oro para elas nos meus
Sambas, rezo nos meus pontos de macumba;
Cultuo-as nos cantos, cantigas, tambores;
Deleito nos manjares dessas negras e
Quero venerá-las, respeitá-las e dizer,
Que tenho dentro de mim uma
Herança delas, um pouquinho de
Cada uma na minha alma; são
As Marias da minha vida, avós,
Mães, empregadas; preciso indenizá-las
E só estas letras não saldam; é
Dívida eterna, fundo perdido e
Precisaria de séculos para que a
Justiça seja feita; minhas noites
Prediletas, noites serenas de luar,
Perdoeis este teu namorado, recebais
Neste mísero confessionário estas parcas
Lágrimas, mas são tudo que tenho para
Depositar em tuas arcas e lavar tuas
Cicatrizes dessa vergonha histórica.

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