sábado, 15 de março de 2014

À mesa de trabalho; BH, 0301002013.

À mesa de trabalho,
Papéis, cinzas, copos,
Restos de jornais,
Livros velhos como eu;

À mesa de trabalho finjo existir
E daqui, pela janela,
Vejo lá fora o mundo que existe de verdade;

As folhagens das árvores,
As gramas aonde os calangos passeiam,
As pedras, o asfalto da rua,
A praça tomada pelo lixo,
Os carros que passam insolentes;

Já me adentro à noite,
Sem me mover da mesa,
Ou me mexer na cadeira;
Qualquer movimento faz-me parecer vivo
E não gosto de parecer que estou vivo;

Os elementos que me formam estão inertes
Na natureza a água não molha,
O fogo não queima, o ar não salva,
E a terra não produz;

E trabalho como numa obrigação,
Numa nova forma de vida,
Trabalho num novo pensamento,
Mesmo ao saber que não há,
Nada de novo debaixo dos céus;

O chão que piso,
É chão pisado,
Por milhares de velhos pés,
Que também queriam amassar um barro novo,
Para uma nova criatura;
Pisar castos cachos de uvas nobres
Para o bom vinho;

E um dia tornarei a embebedar-me,
Com esse bom vinho,
Como faziam os deuses em seus banquetes;

E ora direis, já passaste da idade
De encharcar-te de vinho;
E direi, ora, deixeis-me à mesa de trabalho.

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