sexta-feira, 14 de março de 2014

Não me faleis; BH, 0290902013.

Não me faleis,
Estou de mal com todo mundo 
E com o universo inteiro;
Não me olheis
E nem me deis ouvidos,
Agora sou surdo
E cego
E mudo;
Não sou mais,
Deixei de ser,
Deixei de alma
E deixei de espírito;
Doente,
Nem ente tenho
E nem sou
Nem entidade,
Personalidade,
Caráter;
Não me deis de comer,
Não me deis de beber,
Não me deis de amar,
Não me deis de viver,
Agora só quero uma coisa:
Morrer;
Quero ser contundente,
Quebrar ossos,
Esmagar crânios ao calcanhar;
Quero ser pervertido,
Corruptor
E também corrompido;
Não façais orações para mim,
Não rezeis
E nem peçais aos santos em preces,
Que me abençoem;
Não mereço água benta,
Terço,
Rosário,
Ave-Maria
E padre-nosso;
Não olheis nos meus olhos,
Além de não enxergar os outros olhos,
Detesto que me olheis nos olhos;
Se tiverdes uma poesia,
Ponhais ao pé do pedestal,
Onde estiver relhado;
Se tiverdes um poema,
Por mais profano que seja
E mesmo sujo de sangue de escravos,
De índios, ou de outros mártires,
Exponhais nos postes das ruas,
Nos coretos das praças públicas,
Nos paralelepípedos das ruas calçadas.

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