quinta-feira, 20 de março de 2014

Haverá um dia no qual pararemos; BH, 0601202013.

Haverá um dia no qual pararemos
E não andaremos nem com os pés dos outros
E não pegaremos nem com as mãos dos outros;
Haverá um dia em que nossos ouvidos serão olvidos,
Nossos olhos serão embaçados
E não enxergaremos nem com olhos de outrem,
Nem no tato,
Nem nonada;
Nos recolheremos nalgum lugar,
Num sótão,
Num porão,
Num terreiro,
Nem num quintal,
Num toco de pau,
Num banco de pedra;
E não teremos nem a nós mesmos 
E quereremos quebrar todos os espelhos que nos refletir 
E não acreditaremos que aquelas imagens nos fundos dos espelhos somos nós;
Haverá uma noite em que sentiremos frios
E enroscaremos nossos corpos uns nos outros
E sentiremos mais frio;
E colocaremos cobertas e cobertores,
Edredons e lareiras e congelaremos
E não quereremos ser mais nós mesmos;
Haverá uma ocasião,
Que quereremos ser tudo:
Menos nós mesmos:
E pediremos para que na outra encarnação,
Sejamos torrões e tijolos e monturos e entulhos e murundus,
Menos gentes e pessoas e entes;
Sejamos peixes e anzóis e molinetes e faróis:
Haverá um dia no qual não haverá um dia.

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