segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Alameda das Princesas, 756, 75; BH, 0140902012.

Daqui não vejo nada e nada tenho para ver
E quem é poeta, precisa sempre, de ver    
Algo, enxergar alguma coisa, um movimento,
Uma impressão; quem é poeta, precisa de
Uma sombra, uma rua vazia, uma janela
Aberta; e daqui, ilhado, não vejo o horizonte
E todo monte fugiu da paisagem; apuro os
Sentidos, pois, poeta, se tiver de ter alguma
Coisa, tem que ter é sentido apurado; apuro
Os sentidos e não sinto as vibrações dos
Elementos; as moléculas, as partículas estão
Todas estacionadas e não percebo, natureza
Morta que sou; aí, sobram-me as sôfregas
Letras de quem pede socorro e restam-me
As insolúveis palavras de quem é solúvel; e
Da próxima vez em que estiver aqui, quero
Olhar e ver, quero ver e enxergar e contar
Todas as façanhas que ninguém pode contar;
E ao abrir os olhos, expressar de olhos
Abertos, sou lúcido, sim, tenho lucidez,
Consciência de conscientizado, que vive
Sem remorso, vive sem arrependimento; e
Que tem por máxima a mínima de que, se é
Para arrepender-se, o melhor é não fazer;
E agora que tenho rosto nos rostos das
Coisas, não preciso mais procurar o meu
Rosto nos rostos das coisas; meu rosto
Agora é meu, com face e semblante, sou
Todo eu meu; e só olho agora as pessoas,
Com o fundo dos meus olhos, nos fundos
Dos olhos delas; daqui, então, vejo o
Infinito universo.  

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