terça-feira, 29 de março de 2011

Acordei hoje; BH, 0180202011.

Acordei hoje com um
Acorde diferente na boca, um
Gosto de sangue, e no corpo
Um cansaço, como o de quem
Estivesse a voar a noite toda;
Não dormi, e fui sacudido,
Sacolejado, e saracoteado
Por todos os lados, e dois dentes
Doíam sem parar; vi uma cruz,
E tremi, e senti calafrios; um
Único dente de alho me deteve
Num atalho, e uma trave de
Madeira, que nem sei se era
De lei, pois não sou carpinteiro,
Não entendo de pau, me deixou
Muito mal, e com um mal estar
No peito, e o coração com defeito,
Mas não tem jeito, não tem gesto,
Fico um pouco indigesto, e a
Luz do sol me causa furor, e
Fico o dia todo de luto quando
Estou assim, e até parece que
O enterro é meu; e em frente
Ao espelho, ao pentear o cabelo,
Não me vi no fundo da imagem;
Fiquei preocupado, mas não
Entrei em pânico; talvez eu
Tenha só ficado cego, ou tido
Uma vertigem, e perdi o vestígio, e
Vestido novo para o fato era velho,
De época medieval, ainda por
Cima pesado, e escuro, gola alta,
Nada condizente com os usos,
E costumes atuais, e até em mim
Mesmo eu metia medo, e pensei:
A única saída é não dormir mais.

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