terça-feira, 21 de julho de 2015

MIKIO, 189; BH, 0140602013.

Direis que a poesia há de ser o que
Não é e que, quem a olhar, não a
Vê e quem a vê, não a enxerga;
Direis que a poesia não há de
Ser explícita, como um ato sexual
E há de ser oculta, pudenda, como
Um súbito vulto, que pensamos perceber 
E não percebemos; ora, direis tantas
Coisas, que, nos confundiremos e
Nos tornaremos mais confusos; e nos
Tornaremos mais doentes, densos, casmurros,
Ao contrário de nos clarificarmos;
E direis que a poesia é treva, opaca,
E que, deveria ficar onde está,
Impossível de ser desvendada, adaptada
Entre as paredes, nas molduras, nos
Umbrais, nos vitrais; não é para ser
Vista a olho nu, ou analisada a olho
Clínico e secada com olho grande,
Ambicionada por olho gordo; quereis
A poesia, sem querer a poesia e o tal
Dificultar o parto dela, cometer o aborto
Para matá-la e inculcá-la em outras
Cabeças? permitireis? quereis ferir a
Rocha e a água jorrar e o leite
Ordenhado da pedra, o mel a
Brotar da areia; o que quereis da
Poesia? calejar as mãos, esfolar os dedos,
Encurvar as costas, perder as vistas? de
Manhã no mar é manhã, com a mesma
Manhã secular, as ondas vêm do horizonte
A quebrar nas praias, a pulverizar rochas
Milenares, a preparar areia para os
Seguimentos da dunas nômades.

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