sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Maria da Conceição Santos Medina, O dia em que acordei.

A primeira coisa que me lembro,
Quando me entendi por gente,
Foi o dia em que vi o ninho da galinha cinzenta,
Detrás do forno grande;
Depois nas costa da minha mãe, vindo da casa
Da vizinha, ouvi uma grande quantidade
De vozes de sapos diferentes,
Eu estava com um ovo na mão, dado pela dita vizinha;
Outro dia, quando meu pai me tirou da cama,
Para tomar café, nos pés do grande fogão de lenha,
Meu irmão, que nascera antes de mim,
Estava sentado no chão, com uma touca azul;
À noite acordei e fiquei sem saber porque enxergava as estrelas,
No outro dia fui ver que a nossa casa,
Era coberta de esteira de taquara;
Depois minha mãe me disse que aquele lugar
Se chamava cantinho, e que eu, naquela época,
Tenha três anos;
Passei uma temporada sem ver as cousas,
Tempos depois escutei choro de criança uma noite;
Era minha irmã que tinha nascido,
Já numa fazenda que tinha o nome de Boa Sorte,
Onde moramos alguns anos;
Aí melhoramos de vida, tinha um
Açude onde pescávamos; meu pai caçava muito:
Matava paca, tatu, e até caititu;
Eu gostei desse lugar porque era perto
Da cidade de Teófilo Otoni;
Todo dezembro, nós íamos passar a noite de
Natal na cidade: aquilo para mim era uma beleza;
Só que na casa da minha madrinha,
Onde nós pernoitávamos, tinha muitos ratos,
Percevejos, e a água não matava a sede da gente;
Na Boa Sorte, fiz minha primeira comunhão,
Isso aí já foi bem melhor: calcei um sapato branco
Pela primeira vez, pintado de alvaiade,
Que o filho da minha madrinha me dera;
Em 1923, pela contagem de minha mãe,
Eu deveria ter sete anos;
Nessa época também, morreu meu irmão José,
Aquele que eu tinha visto com a touca azul;
Éramos cinco até aí;
Na Boa Sorte, papai trabalhou muito
E ficamos vivendo melhor;
Comecei a ter vontade de aprender a ler
E a escrever, mas era difícil.

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