terça-feira, 22 de outubro de 2013

Redenção do poeta renegado; BH, 0601002013.

Redenção do poeta renegado,
Poeta estigmatizado, chamado
De poeta, sem uma obra-prima,
Sem uma obra de arte, poeta
Marcado pelo fracasso; e quando
Vai à praça, cercam-no, e
Cobram-no com insultos: tu,
Estúpido, um poeta? e sacodem-se,
Batem os pés, arrastam-se como
Se fossem aleijados, ou serpentes:
Tu, bruto, poeta? balançam-se,
Jogam as escadeiras, bamboleiam
Os quadris, rebolam as nádegas,
Requebram as bundas: tu, apóstata,
Um poeta? aqui na praça? ali
Está o coreto, sobe lá, e
Mostra-nos os teus milagres;
Cura as nossas tristezas, as
Nossas mediocridades, afasta
De nós o nosso sentido dessa
Imbecilidade; canta para
Nós uma ode, uma trova,
Um soneto, o mínimo que seja;
Seja a nossa redenção, ó poeta,
Ou não te tiraremos dessa
Estaca, onde vamos empalar-te;
Tu és um herege, tu és um
Hipócrita, e como tal, morrerás
Na fogueira; a não ser que
Digas, que não és um poeta;
A não ser que renegues a
Blasfêmia, e cantes para
Aquela bela fêmea, antes que
Seja oferecida a um ente
Sobrenatural; se agradares, tu e
Ela estareis a salvo e podereis
Ir às vossas casas: sacia-nos, poeta.

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