terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Meu avô fazia carrancas no papel; BH, 0100902013.

Meu avô fazia carrancas no papel
Com o lápis de cor: cangaceiros,
Jagunços, pistoleiros, capatazes, índios,
Fazendeiros, garimpeiros, boiadeiros,
Peões, cavaleiros, vaqueiros; mulheres
Rendeiras, lavandeiras, namoradeiras,
Índias, escravas; meu avô fazia 
Carrancas no papel com o lápis de 
Cor: barranqueiros, canoeiros, 
Tocadores de viola, tropeiros,
Sanfoneiros, caçadores, montadores
De burros bravos, soldados, polícias,
Reis, rainhas, príncipes, princesas;
Meu avô escrevia cartas aos pais 
Das meninas moças virgens com 
Pedidos de namoros e de casamentos;
Meu avô inda tocava numa viola 
Preta, arranhada de unhas, umas 
Músicas que menino não entendia,
Mas meu avô entendia; meu avô 
Teve muitas terras, fazendas, gentes, 
Era dono de rios, morros, montanhas;
Teve muitos filhos que foram pelo
Mundo, uns voltaram, outros nunca
Mais apareceram, outros morreram
Abandonados em asilos; meu avô
Morreu de um tombo, o vi jogado,
Nu, em cima duma maca, num 
Cubículo dum hospital público 
Do Rio de Janeiro; meu avô 
Gostava de varrer as calçadas em
Frente da casa em que morávamos 
Na Rua do Pau Velho; até hoje não
Sei o que meu avô foi fazer no 
Rio de Janeiro: morrer longe de tudo? 

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