sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As costas do meu pai; NL, 0120202010.

As costas do meu pai,
Sentado estava meu pai na maca
Do hospital, e da poltrona, o
Observava, e estava de costas
Para mim, sem camisa; as costas
Do meu pai, eram erectas, os ombros
Eram altos, mas não vi os sinais
De tantas chibatadas que levaram
Os antigos negros, relhados nos
Pelourinhos; a cabeça era de touro,
De touro negro, não sei de quais
Rincões da África; de pé era o
Verdadeiro Colosso de Rhodes, dominava
Toda a região; o tronco era
Feito de árvore, que o vento não
Balançava; as canelas finas, porém
De ferro, raramente vistas, canelas
De capoeirista Firmo; a estrutura ,
De gigante de Maratona, porte de
Atleta grego, venerado igual a
Um deus do Olimpo; as costas do
Meu pai, cravei nas memórias das
Minhas retinas, nas lembranças das
Meninas dos meus olhos e foi a
Única vez que passaram por meus
Cristalinos; nunca tinha visto
Meu pai desnudo, nunca o vi em
Trajes mais sumários, ou sem a
Camisa e impressionei-me com
As suas costas e tentei decifrar ali
Seus mistérios, segredos e medos;
Suas histórias, berços e destino;
Não o tenho mais entre nós,
Eu e os meus eus, ficamos órfãos
Daquelas costas de Apolo negro, do
Muro das lamentações dos nossos conflitos.



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