quarta-feira, 30 de março de 2016

Esgotaram-se todas as fontes e mananciais; BH, 0130302016.

Esgotaram-se todas as fontes e mananciais,
Nascentes e nem chorar o ancião chora 
Mais, agora são só lamúrias, lamentações
E gemeções; quando tem alguma força, 
Clama pela morte e agarra-se pelos lençóis
Da vida; as paredes estão gravadas de 
Murmúrios, os tetos forrados de sussurros
E no forro, reverberações de outrora; e 
Como dói um passado mal curado, uma
Vida perdida em feridas crônicas, em 
Úlceras venosas incuráveis; coração
Chagado, peito sufocado, asfixiado pelo
Catarro eterno, que para expeli-lo, quase
Que os pulmões vêm juntos; a boca é 
Amarga, fétida, o hálito azedo, os beijos
Doces idos, jazem esquecidos, nalguma
Latrina de fundo de retrete; e aquela pele
Plástica, elástica, brilhante, hoje pelanca,
Que gato de beco escuro recusa; os 
Músculos que emolduravam carne 
Fresca, viva, foram digeridos pelo tempo;
E fantasmagórico, um sobrenatural em 
Cima dum colchão, mete medo o senil,
A quem passa e não o viu; arfa para dizer
Que inda sobrevive, cospe, baba, tudo é 
Nojo e asco e repulsão; e já não se recorda
Mais dos filhos dos quais era cercado, 
Esqueceu nomes, lembranças, memórias; 
E de tudo que era útil, só o inútil forma 
O ser à espera da hora derradeira; um 
Passarinho pousou no umbral, o velho
Tomou um susto, não viu a luz do sol
Que queria ferir seus olhos, os lábios,
Numa sepultura aberta, as ventas, duas
Lápides sem epitáfios, arrombaram a 
Porta e levaram aquilo a ser cremado.

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