quarta-feira, 30 de março de 2016

Sai do limbo e levanta do chão e anda; BH, 0200202016.

Sai do limbo e levanta do chão e anda,
Fiz-te do melhor barro, aço, bronze, mármore;
Moldei-te, modelei-te, remodelei-te, igual
Michelangelo e Rodin, faziam com suas 
Peças; várias vezes soprei e assoprei em 
Tuas narinas hálitos de meninas, arroubos
De virgens, arrulhos de pombas; e o que me
Sais? um velho mórbido a andar nu pelos
Jardins, a comer das frutas podres dos 
Pomares, um senil decrépito a beber 
Vinhos azedos, a comer gorduras e a 
Deixar de lado as carnes sagradas; e 
Olha que fiz um esboço de carvão de 
Hulha, fiz um croqui de granito celeste,
Um desenho com uma vara de negrito
Secular: e o quê vieste? mais uma besta,
Mais uma peste a levar uma vida 
Agreste; e agora, desnudo vagabundo, 
A expor as vergonhas ao mundo, 
Envergonha-me perante a todos; antes
Não precisava suar a pele nua, ralar
Os joelhos, relhar os cotovelos, calcar os 
Calcanhares, desmazelar os tornozelos:
Tinhas de um tudo; e gritei-te no 
Sepulcro, depois de tirar a cruz das 
Tuas costas e os cravos das tuas 
Feridas; hoje, anda no meio de 
Bandidos, de putas e vadios, não
Voltas à casa do pai; filho pródigo,
Deteriorou a alma, ser e espírito e 
Nada em ti salvaste; cheio de 
Malasartes, a transbordar de malfeitos,
Afoga-te em defeitos; e olha que 
Mirei-me em Apolo, pensei em 
Narciso, copiei Adônis, invejei
Antônio, o Belo, pensei num ser 
Singelo, não usei formão, nem martelo,
Só pétalas de flores; e o que me trazes?
Um poço de dores.

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