segunda-feira, 24 de agosto de 2015

MIKIO, 140; BH, 0250402013.

Acabou-se o que era doce, vi-me
Da noite para o dia, com as calças
Nas mãos, os pés rotos no chão, as
Botas desbotadas encostadas no
Canto da parede; quem num dia era
Rei, no outro virou mendigo, a
Pechinchar na xepa da feira,
A pedir pão dormido nas padarias;
E passei não mais a viver a poesia,
Não mais a fazer aquela oração do
Pão nosso de cada dia dai-nos
Hoje; a fé escafedeu-se de mim,
Como um raio que parte duma
Nuvem carregada; e aquele porto,
Donde sorrateiro observava o
Universo, aquele outeiro, onde
Permanecia alerta, estátua
Como um colosso, a guarnecer
As entranhas das galáxias, vi-me
Desprovido dele, nu, com as
Vergonhas à mostra e sem reação,
À deposição de minha autoridade;
Ouvi vozes desconfortáveis que,
Indignadas, reprovavam a minha
Decomposição; aleguei que faria
Uma nova experiência e que,
Como um pensador de Rodin,
Encontraria a pedra certa para
Apresentar a bunda e que talvez até
Mais vestimentas apropriadas, para
Esconder as vergonhas, ora transformadas
Em banhas; isso é no que dá ser passional,
Patético amador e o universo pede
Sem sentir, este pobre observador.

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