quinta-feira, 14 de abril de 2016

Um poço vazio e uma cisterna abandonada e uma cacimba; BH, 0130602015.

Um poço vazio e uma cisterna abandonada e uma cacimba
Sem água, açude seco, ribeirão de areia, córrego 
Que não corre mais, regato que não rega no ato, 
Riacho que não rir, acho, represa de lama morta,
Reservatório de barro que não presta para moldar 
Bonecos, que os mestres moldavam antigamente,
De bichos e de gentes; pote de pó, talha de poeira,
No canto, o cantil senil, na parede, dependurado 
Atrás da porta, o alforge puído e as calças de 
Algibeiras furadas; as botas surradas no chão de 
Terra batida, tórridos torrões esfarelados; o tempo
Parado, o vento cruzou as pernas e os braços, as 
Nuvens escafederam-se do céu e um azul de doer
Fundo de olhos trevosos, abraçou a imensidão; 
Flores teimosas que pediam chuvas, morreram de
Sede, vodus de encruzilhadas para tempos melhores,
Jaziam esquecidos; e toscos tocos olhados de longes,
Na reverberação panorâmica, relembravam 
Entidades sobrenaturais; tudo cansava a vida e 
Toda morte estava cansada de matar e a própria 
Morte morreu com suas reminiscências; e como
Se tivesse tomado um chute no saco, um soco na 
Boca do estômago, ou tido um dente arrancado
Na bruta, por um dentista desastrado; o sol
Ofendeu-se na fenda da serra e uma noite de 
Espantar espantalhos, pesadelos, petrificar sonhos,
Adormece a natureza mórbida, de um sono
Desértico e o artista, num último retoque do 
Óleo sobre tela, assinou a obra e dormiu aliviado. 

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