segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Tu que olhas para mim o que vês?; BH, 090402001; Publicado: BH, 02601202013.

Tu que olhas para mim o que vês?
Uma velha torre em ruínas, de
Castelo medieval abandonado;
Uma vinha estéril em algumas
Léguas de terras áridas; e tu sabes
Que a minha velhice não conhecerá
Nenhum recanto acolhedor e o meu
Túmulo será solitário; acolherá
Um fantasma disparatado, um cadáver
Despropositado, como alma que não
Tem propósitos e tu que olhas para mim,
Pergunto: já viste ser mais desmedido?
Com semblante tão desigual, que não
É proporcionado ao normal? falas,
Conheces ente tão desproporcionado?
Monstruosidade tão desconforme? ou
Os teus olhos são cegos às desproporções?
Ou as faltas de proporções não te assombram? sou
O réu que querem tornar nula a pronúncia;
O desprimoroso que querem despronunciar e
Dizem que réu não tem primor e é descortês;
Dizem que réu é desprezível, digno de
Desprezo, vil e abjeto; e tu te calas e 
Calo-me, pois tu falas por mim e se
Até tu agora vens a desprezar-me,
Tratar com desprezo a tua carne; rejeitar
O teu osso, recusar a comida da tua
Boca: é aumentar o desprevenir das minhas
Sombras; é expor o descautelar da minha
Fortaleza, que não soube se prevenir; e
Deixou o meu fantasma desprevenido acorrentado
Às torres das masmorras dos calabouços; deixou
A minha assombração que não se preveniu,
Como o acostumado com dinheiro, o endinheirado,
Sem dinheiro nos bolsos; como o descautelado
E o feudal, nada despretensioso, que fechou a porta da
Prisão, com muita pretensão, sem ar de
Modesto e de singelo, mandou atiçar mais
Ainda a fogueira, embrasar os ferros e
Marcar-me com a estigma dos malditos.

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