sexta-feira, 1 de abril de 2016

A luz desceu sobre a minha cabeça; BH, 0140202016.

A luz desceu sobre a minha cabeça
E não era a luz do Divino Espírito Santo,
Eu não era o Filho de Deus e nem estava
A ser batizado por João Batista; era mais
Um preto pecador pobre de periferia, a
Luz era dos faróis de um camburão, ou
De lanterna do soldado que iluminou a
Minha cara, seguida de um safanão; mãos
Para cima, de braços abertos apoiados na
Parede, pernas abertas e de costas para os
Meus algozes; tatearam minha bunda, meu
Saco, minha barriga, meus bolsos; onde
Escondeste a parada? virei a cabeça para
Responder, outro tapão, cara na parede,
Responda com a cara na parede, cadê a
Parada? tenho nada não, seu moço e
Minha carteira já nas mãos de um deles,
A revirá-la, averiguação dos meus
Documentos, liberação, com mais alguns
Safanões e deboches; no dia em que um
Preto pecador pobre, representante nato
Do gueto, for reconhecido como filho
Do Divino Espírito Santo de Deus, a
Humanidade começará a tomar outro
Rumo; mesmo assim, saí agradecido,
Por ter ficado vivo, pois muitos irmãos,
Muitos manos, depois que passaram
Nas mãos da polícia, não apareceram
Nem os cadáveres; corri para o meu
Beco escuro, quase sem fôlego, nenhum
Disparo veio atrás de mim; ao longe no
Caminho, perdia-se o vermelho do
Giroflex e no silêncio do meu barraco,
Deixei escapar um sorrisinho de alívio.

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