sexta-feira, 1 de abril de 2016

Perdi o vínculo com as palavras; BH, 080202016.

Perdi o vínculo com as palavras
Como as calças amarrotadas perderam o vinco;
Perdi a força das letras, como as constelações
Perdem a luz e vagam às cegas de 
Universo em universo, antes de se 
Desintegrarem; e perdi coragem, fôlego,
Fé, como o homem do deserto, depois de ter
Todas as energias drenadas pela areia e o 
Corpo crestado pelo sol; perdi a poesia, o 
Poema, a obra de arte, a obra-prima, a 
Matéria-prima que dava densidade à 
Minha vida; perdi a vida e vaguei pela
Terra, Caim, filho pródigo, colecionador 
De sinais e de colossais derrotas e tragédias;
E voltei mais morto do que vivo, regurgitado
Por todas as bocas que mastigaram minhas
Carnes e estômagos que tentaram digeri-las;
E hoje olham-me com olhos estranhos,
Como se não tivesse nascido de uma 
Entranha materna, como se eu fosse de uma 
Terra estranha, se sou feito de terra, torrão
Ressequido; e quero só nascer no coração
De alguém, como o sol nasce todos os 
Dias e quero brilhar como a luz do sol
Brilha ao sair detrás dos montes; e como
A lua a ressurgir revigorada da linha
Do horizonte, em oração milenar, a 
Dizer amém, a ouvir amém, a abençoar o 
O mar, a guiar os navegantes aos portos seguros  

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