domingo, 6 de abril de 2014

E só quem escreve num silêncio duma madrugada; BH, 01º01202013.

E só quem escreve num silêncio duma madrugada,
Sabe o prazer que é escrever num silêncio duma madrugada;
E a pior coisa é quando passa um automóvel estúpido,
Ou uma motocicleta ensandecida a perturbar o silêncio,
A quebrar a inspiração e a escurecer a imaginação,
Da sonora criatividade;
E imagino que há neste mundo,
Bilhões de seres solitários,
Num silêncio duma madrugada,
A imortalizar suas reminiscências;
Por prazer, ou por sofrimento,
Por lucro, ou por obrigação,
Como um profissional;
E só quem escreve num silêncio duma madrugada,
Pode saber o que quer dizer isto,
Escrever num silêncio duma madrugada;
De companhia só os ruídos,
Os fantasmas e seus rumores,
As almas e seus soluços,
Os lobisomens e seus urros,
Os espíritos e suas falas;
E tudo parece tão assustador e sobrenatural,
Que quem escreve,
Só falta virar criança medrosa;
E são apenas impressões e rumores,
Uma rajada de vento,
Um automático de geladeira que a desliga,
Ou a põe a funcionar;
Um ranger de porta, ou um bater de janela,
Ou um esfregar de pés;
O que não faltam são sombras,
Vultos e penumbras e assobios;
Tudo que está morto parece ganhar vida
E tudo que está vivo parece morto;
E mesmo quando é um prazer pavoroso
E não deixa de ser um prazer pavoroso,
O escrever no silêncio duma madrugada.

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