quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Que saia de mim tudo e o que deixa-me cada vez mais vazio; BH, 070202000; Publicado: BH, 0310802013.

Que saia de mim tudo e o que deixa-me cada vez mais vazio, 
Igual ao sol que sai no fim do dia, a deixar só a esperança 
Da noite que chega; que saia de mim todo o despeito e a 
Inveja, toda a ambição e o orgulho e que aprenda a abrir a 
Mão e a renunciar a todo materialismo; que saia de mim 
Toda a angústia e a agonia, todo o medo e a covardia e 
Que só fique a fonte da felicidade e da fé, a fonte da paixão
E do amor; e o restante seja destruído junto com a dor, o 
Desespero, a desgraça causada pela miséria e pela 
Pobreza sem fim; para ao fim, quando abrir os olhos, não 
Deparar mais, com quadro tão desalentador, onde meninas 
Ainda crianças, são usadas como prostitutas, meninos são 
Usados em trabalho escravo, aviões do tráfico, a sofrer todo 
Tipo de violência, além da sofrida na infância que não tem 
Um resguardo, um amparo oficial, a não ser o amparo do 
Tráfico de drogas que, gentilmente, cede um fuzil vistoso, ou 
Uma pistola bonita, dourada, droga e dinheiro fáceis para o 
Adolescente comprar roupas de grifes e tênis da moda e 
A prendê-lo para sempre à uma ilusão de vida e de poder;
Para sempre não, até que a morte chegue; e é isto que 
Tenho a dizer neste fragmento, já que, não escrevo para 
Agradar nem a mim mesmo; não escrevo para enaltecer e 
Nem para vangloriar e espero que ninguém nunca venha a 
Ler o que escrevo; pois, nada acrescentarei e nada terei 
Para somar a alguém que, por acaso queira perder horas 
Do tempo precioso para ficar a ler o que alguém escreveu,
Justamente por não ter nada o que fazer e acabou a perder 
Todo o tempo a escrever o que na verdade não tinha para 
Escrever e era só uma maneira de não ficar a coçar o saco,
A crescer a barriga e a amolecer a bunda, a desperdiçar a 
Vida tão boa; porém, sou um torcedor obstinado e teimoso 
Que, quando todo mundo já se perdeu, ainda estou no mar
Da bonança e da calma, ainda estou na tranquilidade, na 
Serenidade do sereno e no silêncio da neve; ainda estou 
De madrugada sobre as pétalas das flores, igual ao orvalho 
Da poesia, igual ao poema da primavera; e é por isto que,
Encontram-se tantos eus nos fragmentos que deixo registrados; 
E não é por ser egoísta, egocentrista e só pensar em mim e
Querer o bem só para mim e a ser que ajo totalmente ao 
Contrário do que de repente possa parecer às pessoas;
Isto se por ventura alguém se inteirar e querer por acaso 
Passar as vistas por estas sinuosas linhas; pois, do contrário,
A impressão ficará só comigo e não fará e nem causará 
Náusea, asco, ou ânsia de vômito a quem quer que seja;
O dia em que contentar-me em deixar de ser um curioso, 
Um mau inventor e estudar, aí, poderei sair por aí, a mostrar 
Os frutos, os filhotes e os filhos que pari debaixo de uma
Estrutura alfabetizada, gramatical, concordada verbal e 
Estruturalmente conexa, de onde valha a escritura profana e 
Não a sagrada, porém, de algum interesse não promocional, 
Não superficial e sim de ajuda, de formação, de composição, 
De elemento, definição, designação genérica de caractere 
Essencial; pois, não quero cair naquela de quem fala muito, 
Não diz nada, tal quem escreve muito, acaba por não escrever 
Nada e preciso deixar alguma coisa escrita; alguma coisa 
Precisa ser salva e preservada por menor e menos 
Insignificante que seja; por isto que saio por aí, a registrar 
Estas impressões, para ao cabo de um período, pensar que,
Uma pequena parte, uma parcela mínima, atinja algum valor 
De linguística e de estudo; e se for para passar vergonha, 
Passar vexame, o melhor a fazer é enterrar tudo como se 
Fosse um defunto em decomposição, ou cremar como se
Fosse um cadáver de milionário, ou congelar para 
Descongelar no futuro, ou ainda colocar num sarcófago 
Como se fosse um faraó: Ramsés, Tutancâmon, Quéps, ou
Miquerinos; não importa o nome do faraó, importa é o
Sarcófago, a catacumba, a pirâmide, o sepulcro; e quando 
Os ladrões, salteadores, saqueadores de túmulos vierem 
Violentar o meu, só encontrarão os restos mortais destes 
Fragmentos que estou a vos deixar agora; porém, só em 
Caso de vós quisésseis guardá-los tais tesouros de valor 
Artístico, valor histórico e não monetário, não cambial; valor 
Simples, de valor que tem a letra, que tem a palavra, que tem 
A frase na eternização da língua; que tem o verbo na oração, o 
Sujeito, o vocativo e todo o composto que gera a beleza à vista,
Ou oculta de um texto bem elaborado, ou elaborado por metáfora, 
Por figuras, por licenças; e o único valor que defendo é o valor de 
Ler, de carregar um livro no lugar de um celular, de ler uma 
Enciclopédia no lugar da internet, de olhar para a lua no lugar de 
Um satélite artificial; o valor que exijo, é o valor da poesia e a
Poesia não existe valor para ela, é monumental e quero mais é ler
E não falar em telefone, quero mais é escrever e não navegar
Na internet, quero é viajar pelo pensamento ao sabor da mente, da
Imaginação e da memória; que saia de mim tudo que deixo escrito
Aqui e que fique em mim tudo que leio e que estiver escrito aqui e 
Que sempre seja a válvula de escape e a saída de emergência,
A escada de incêndio, o balão de oxigênio, o soro reidratante a 
Vacina salvadora, o antídoto imunizador, o remédio para a cura 
Total e o texto da salvação e o reimplante da língua esquecida;
Os bons modos e as boas maneiras, a etiqueta e a educação, 
A saúde e o por favor e o muito obrigado; meu irmão que não 
Abandonou-me e que chegou junto a mim, estendeu-me a mão, 
Enxergou minhas lágrimas, conteve meu lamento, abafou meu 
Uivo de animal ferido, acordou-me e despertou-me para o futuro 
De uma vida melhor; fez-me nadar, olhar em mim e enxergar-me a
Fazer da coragem o elixir da sobrevivência e da fé o caminho para 
Chegar à luz e da luz a espada para ferir as trevas, rasgá-la ao meio, 
A abrir uma fenda por onde escorrerá toda luz manancial, natural e 
Límpida que precisamos para continuar a nossa jornada de vida, de 
Esperança, de segurança e de sobriedade; que saia de mim num 
Exorcismo todos os demônios e todos os capetas e satanases; que saia 
De mim todas as matizes do mal e reine a paz e o bem em meu frágil coração.(2)

Nenhum comentário:

Postar um comentário