terça-feira, 1 de setembro de 2015

MIKIO, 126; BH, 0290302013.

Dormente, tive a vida toda para despertar-me
E sigo triste pelas ruas da cidade, a arrastar
As minhas deformidades; e se desperto-me,
Permaneço sonâmbulo, se sonho, vivo
Pesadelos e não arrumei-me, não quis pôr
Fim ao meu desmazelo; e trago tangida junto
Ao meu peito a solidão; se no futuro sinto-me
Velho, no além serei fantasma, uma sombra
No limbo, ou uma penumbra imperceptível
Atrás da porta da escada; sento-me no
Primeiro degrau e choro, menino a contorcer
As mãos, todos os meus sonhos fluíram por
Entre os meus dedos, os dedos ficaram e
São dedos inúteis; são dedos de mãos que
Não fazem manufaturados, não tecem tapetes,
Não constroem estradas; foram-se os anéis
Levados pelas enxurradas das águas turvas,
Ficaram estes dedos embriagados, trêmulos,
Dedos de mãos de bêbados, que, tremem
Sem emoções, tremem sem sentidos; são
Dedos sem reações, não apertam gargantas,
Gatilhos; não dão socos, murros, porradas,
São dedos de mãos que não se postam em
Orações; dormente, se vivesse numa ditadura,
Certamente estaria num pau de arara, a
Receber tortura, a receber choque elétricos;
E com certeza seria reanimado, como se
Sofresse efeito dum desfibrilador; é a dor, a
Dor mente, a dor finge, e dormente, sigo
Insensato a fingir que sou lúcido, enquanto
Ando pelas ruas da cidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário