quarta-feira, 18 de julho de 2018

Já andei por longas terras; RJ, 1981; Publicado: BH, 0310702012

Já andei por longas terras
Naveguei profundos mares
Voei inatingíveis céus
Galguei intensos véus
Segui perdidos caminhos
Matei mil passarinhos
Mas era doido
Menino levado
Moleque danado
Malvado e tarado
Cheio de sacanagens
Descobri vastos quintais
Perdi-me em capinzais
Entrei em capoeiras
Armei arapucas
Fiz estilingues
Soltei pipas e arraias
Coios e papagaios
Conheci guerreiros
Índios bravos
Bichos do mato
Matei cobras
Calangos e lagartos
Cacei rolinhas
E papa arroz
Não tinha coração
Tinha uma alma de leão
Cheio de furor 
Trepidez e coragem
Entrava em espinheiros
Metia a mão em formigueiro
Não ficava em cativeiro
Logo me cortaram as asas
Deixei de ser borboleta
Puseram-me um nome
Um sobrenome e um número
Vestiram-me estranhas roupas
Deram-me vergonha e pudor
Hoje não não ando mais
Já não voo mais
Hoje já não sonho mais.

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