sexta-feira, 20 de julho de 2018

Quero cobrir com alfombra; BH, 040202000; Publicado: BH, 0310702012.

Quero cobrir com alfombra
Os caminhos por onde tiver de passar
Alfombrar minhas sendas
Atapetar as veredas arrelvar os atalhos
Tirar de cima de mim a alfonsia
A alforra das searas que parece
Ser produzida por uma espécie de cogumelo
Tirar de cima de mim a ferrugem das
Plantas de quando nos mantemos no meio delas
Quero ver alfombrado meu esconderijo
Atapetada minha gruta
Arrelvada a caverna onde 
Vou construir o meu sepulcro
Quero pisar meu chão de alcatifa
Como se fosse um tapete natural
E não usarei nos pés calçados
E os manterei sempre num viveiro
Fresco de plantas num canteiro
Entre dois regos por onde
Corre água cristalina
Um alfovre de sombra
Um alfofre de fofo e macio
Um alfobre terno de ninho de passarinho
E alfim da vida ali permanecer
Afinal de contas procurei todo o tempo
E mereço finalmente repousar a cabeça
Ao cabo de uma vida conturbada
Cheia em demasia de altos e baixos
Mais baixos do que altos e baixios
E quando passar este meu alfeninar-me
Não tornar-me deveras mais frágil
Mais melindroso do que já sou
Tão delicado que pareço efeminado
E toda a minha trilha abrirei com alferça
Romperei com alferce o espinheiro
Com picareta as pedras e com o alvião
A erva daninha e o mato cerrado
Quero tudo limpo no meu caminho com o enxadão.

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