quinta-feira, 28 de junho de 2018

Não tenho ideias; BH, 0260801999; Publicado; BH, 0260602012.

Não tenho ideias
Nasci com arreios mentais
Senti desde cedo o arrear do meu pensamento
E a mentalidade presa por arreata
A mesma corda ou correia
Com que se prende cavalos
E burros para conduzi-los
Nasci uma alpercata presa
Em pés calejados de sertanejos
Pés duros e maltratados
Dos nossos mais simples representantes
Os retirantes caminhantes
Que fogem da seca e do sol escaldante
Vivo sem nada do que adornar-me
Não vejo como mobiliar
Nem a minha casa
Imagina a minha cabeça
Nada tenho com que me ufanar
Ovelha só sozinha solitária
Não tenho como me arrebanhar
Juntar-me em rebanho
Reunir-me com outros
Fui arrebatado de mim mesmo
Sou o meu arrebatador
Não tenho exaltação
Não vivo com êxtase
Só sinto tirar de mim a vida
Tomar meu tempo com violência
Levar à força minha alma
Só sinto arrancar de mim o amor
E privar a mim o usufruto da paz
É arrebatar-me da sociedade
A minha presença incomoda
Podeis roubar a minha felicidade
Nada mais pode me enlevar
Inflamar meu peito
Com o que vou regozijar-me hoje?
De que que tenho que orgulhar-me?
O arrebatamento que conheço
É o terror que se apodera do meu coração.

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