segunda-feira, 25 de junho de 2018

Vi a minha avó Conceição morta; RJ, 030201999; Publicado: BH, 0230602012.

Vi a minha avó Conceição morta
Alguém chorava na janela
Não lembro-me quem era;
Vi a minha avó Maria a Madinha morta
Meu pai chorava comigo no colo;
E era menino
E não entendia nada e 
Vi sargento Armindo a morrer
A sair pela porta da frente
Carregado de braço em braço
A uivar penso que de dor e 
Uma espuma branca pastosa
Escorria-lhe da boca;
Vi sargento Armindo morto
Velado na sala de visitas da casa
Minha mãe chorava num canto;
Vi meu avô Cesar morto
Na Santa Casa de Misericórdia
Do Rio de Janeiro e 
O cadáver dele estava nu numa maca
Um líquido qualquer expelia-se do pênis dele
E penso que morreu por descaso;
Vi minha tia Lourdes a agonizar
Pressentir que ela ia morrer
Tentei evitar-lhe a morte 
E eu era inútil;
Vi minha avó Naninha a morrer
O câncer a consumir em pouco tempo e 
Não cheguei vê-la morta
Não fui ao enterro e penso
Que a minha mãe
Nunca perdoou-me por isso;
Vi de perto o sofrimento e a morte
Do meu avô Donato morto
E como doeu.

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